Mamãe nos levou ao cinema - era algo que nunca fazíamos,
Um luxo caro demais para a nossa vida simples,
No apartamento de um só quarto,
Na realidade de um pai doente.
Minha irmã queria ser Suzanna, alta e rebelde,
Uma arqueira poderosa que protegia a irmã mais nova.
Eu também queria ser ela, os cabelos lisos e os vestidos incríveis.
Brigamos.
Mamãe apartou a briga, dizendo que Clara poderia ser Lúcia,
Pois era a mais nova, de qualquer forma,
E eu seria Suzanna
Às vezes penso se foi ali, naquele momento,
Que eu fui incumbida da tarefa de guardiã da minha irmã,
Prestes a me atirar diante de um lobo para mantê-la a salvo.
De qualquer modo, bastou a palavra da minha mãe e,
Simples assim, a briga estava resolvida,
A sentença que precisávamos.
Naquele dia, papai nos encontrou no shopping,
De surpresa!
Lembro de corrermos até ele tão felizes por estar ali,
Tão animadas de podermos contar sobre o filme,
Dali, saímos para comer sanduíche,
Clara e eu nos sentamos numa mesa pequena - para crianças.
Papai e mamãe dividiram uma mesa de adultos.
E, juntos, andamos para casa.
Clara foi Lúcia e eu fui Suzanna por meses a fio,
Semanas consecutivas,
Quando nos sentávamos, todos os domingos de manhã,
Para reassistir ao filme que deu origem à brincadeira.
Tínhamos brinquedos, vindos em caixas de cereais,
Que, congelados pela Feiticeira Branca,
Recuperavam a cor com nossos sopros.
O ciclo recomeçava
Todas as vezes que as pequenas peças iam parar no congelador.
Era 2005, nós (ainda) éramos felizes.
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