Eu
já morri tantas vezes... Tantas vezes que você se assustaria caso eu lhe contasse.
Você duvidaria, meu amigo. Perdi o sono por cem dias. E por cem vezes, perdi-me
de mim mesmo. Já jejuei por mil anos. E por mil anos, encontrei-me comigo mesmo
a cada novo amanhecer.
Quando
tudo foi escuro, dentro de mim encontrei forças para levantar. E, ainda assim,
me derrubaram novamente. Feriram-me por quinhentas vezes. Quinhentas chibatadas
em meu couro negro. E ainda assim, me reergui. Ainda assim, criei forças para
não gritar e não sucumbir.
Por
uma longa eternidade, pediram-me perdão. E ainda pedem. E com o coração voltado
para o céu eu digo que os perdoo. Mas meu corpo talvez não...
Quando
tive de sorver para dentro de mim todo o medo e a insegurança, quase explodi.
Mas de algum lugar surgiram forças, tornando-me elástico, capaz de absorver e
absorver. E quando houve fogo em cada pedaço de minha carne, eu fui gelo.
Implacável, inquebrável em meus mil metros.
E
quando insistiram em devastar-me, em privar-me de mim mesmo, eu gritei. Lutei
com todas as minhas forças e me encontrei com alguém muito parecido comigo
virando uma esquina qualquer, de um beco qualquer do meu coração.
Houve
apenas um som. Um tiro ecoando pela caixa torácica, pelo crânio e pela alma. E
ali, encontrei a morte mais uma vez.
Eu
já menti tantas vezes... E a cada mentira era um prego cravado em minha língua.
“– Pai!
Por que me abandonastes?” – Eu não cansava de me perguntar. E ainda me
pergunto, senhora.
Quando
quiseram prender-me entre espinhos e algemas, eu revidei. Eu aplaquei. Eu
sufoquei cada um de vocês. Eu me libertei, senhores!
– Ouçam!
Quando o Inverno vier, corram! Corram por suas vidas, camaradas! E corram por
si mesmos! Arranquem os olhos de seus algozes! Privem-nos da vida que querem
privar de vocês!
E
incontáveis vezes perdi as palavras. Ou não ouvi as palavras. Ou não pensei nas
palavras. Não as absorvi e não me apaixonei por elas.
Sou
como essas palavras: Eu já morri incontáveis vezes.
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